Anoitece na Graça. As estrelas visíveis esboçam todo o teu perfil. Contrasta-se a realidade daquilo que sinto e faço. Funde-se o norte magnético com os teus gémeos de aço. Sinto-o pelo nariz... Um aroma intenso que me retém incompleto e suspenso, E o abraço inacabado revela-me alheio e tenso…
Na paragem, as pessoas e os seus cansaços empenham-se na contagem impaciente. O painel digital anuncia o último minuto de espera pelo descarrilado há pelo menos vinte. O pôr-do-sol chegou primeiro... Há algo nos descarrilados que distorce o tempo e o estende infinitamente.
O espaço é inevitavelmente afectado! A lotação teórica permitida é praticamente espezinhada, prensada com a soma de ligeiros empurrões cínicos com origem na frente, causando sérias repercussões nas traseiras. Paguei o bilhete, guardei-o no bolso e deixei-me levar pela corrente. Há calor, falta de ar e uma mistura espontânea de aromas humanos fora da validade percorre-me as narinas ao som dos auriculares da passageira que se encontra nas minhas costas. Aquilo finalmente parou! Estiquei o braço direito, o pé esquerdo levantou cinco centímetros e agarrei-me ao varão gorduroso vertical metalizado. Os cabelos cinzentos e encaracolados de uma passageira anciã faziam-me cócegas no antebraço e a fome começava ...
Os meus olhos desejaram os teus, Porque arqueavam a íris, sem chuva nem sol nem céus… As minhas mãos acariciaram as tuas, Porque tranquilizavam a cabeça de quem contara mil luas… Os meus ouvidos e a tua voz, Deram-me as notas soltas que apertaste com mais de trezentos nós…
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