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A mostrar mensagens de 2008

Notáveis, conscientes disso

Notáveis, conscientes disso, Deram os seus passos, dominantes. Trocaram as peles pelos fatos de macaco, Os galhos a arder por electrões a correr, A madeira pelo aço que os leva ao espaço, A água fria por óleo a ferver. Mutáveis, inconscientes disso, Dão os seus passos, dormentes... Apreciam o seu estado desconhecendo o vizinho do lado, O trabalho e o mérito para comprar as peles, sem crédito, O rio fétido e imundo onde não se consegue ver o fundo, A gravata no pescoço e fruta sem caroço.

Bebi o vinho, sentado

Enumerei um por um, até um, o problema no cabeçalho do copo. O gato, sentado em cima do cinzeiro vulgarmente cheio, lavava o antebraço esquerdo com afinco mas interrompeu subitamente a sua higiene pessoal com um bocejo que lhe adulterou o ângulo relativo dos bigodes. Compreendi porque não o podia manter no cabeçalho: dava a volta completa e impedia-me de encostar os lábios. Ensaiei de forma cuidada a sua colocação no rodapé e tudo parecia correr bem até o voltar a pousar: a meio da sua descida mais ou menos controlada de regresso à mesa, o problema caiu, um por um e até um, o que me levou a quase esmagá-lo com a base do copo e entornar o vinho. Tentei obter uma forma mais funcional, sem comprometer a estética, de enumerá-lo no copo: segurei-o pela base com a ponta dos dedos e coloquei-o no corpo, enquadrando-o com perfeição na imagem refractada e tingida que o atravessa. Agarrei o copo, moldei o problema aos cinco dedos e bebi. Reparei, passado algum tempo e uma observação mais atent...

Estendi a mão à imaginação e ela fugiu! parte três

Pela porta da cozinha, através dos espaços vazios verticais móveis entre as fitas anti-insectos, conseguia ver o empregado às riscas com a cabeça enfiada dentro de um alguidar. Acendi um cigarro com a parte mais clara do topo da chama e peidei-me. No fantástico evento que passa na televisão em directo, alguém também acendeu um e curvou-se ligeiramente para a esquerda. Farto de limonadas, espero pelo meu copo com sangria que não vem... Continuo sem saber como sair daqui. Tenho de me lembrar de não voltar a este bar fedorento! Ao passar pela máquina de café reparei que a roupa já estava seca. Estou aqui há mais de relógio e meio! Chamei-o e não respondeu. Talvez não me conseguisse ouvir... Chamei-o mais alto... Nada! Atravessei as fitas, aproximei-me, puxei-o lá de dentro pelo colarinho e, ofegante, disse-me que não queria sair já e barafustou por tê-lo puxado. Meti a cabeça dentro do alguidar, ainda a agarrar-lhe o colarinho, submergi-a e abri os olhos. Os cubos de laranja e os de ma...

Normal

Pego nas minhas coisas e tomo rumo à direcção normal. Sei que vou chegar atrasado pois vou à velocidade normal. Sei que pé utilizar para me desviar de qualquer um dos normais buracos. Sei em que buraco enfiar o pé quando me distraio e olho para um outro sitio normal. Sei que a brisa normal permanecerá assim até que, ofegante, a inale... Sei que após uma inspiração profunda, uma longa expiração é normal. Sei que o cansaço é normal e que o descanso sucederá. Normal…

A serpente que queria voar

Sempre ondulante, no chão chato e por vezes encharcado, pergunta-se a si própria: porque estou presa ao chão chato e por vezes encharcado? Inconformada com o destino que se apresenta à sua frente, despende já a maior parte dos seus dias a tentar voar. Nada a demove! Não há obstáculo que se afirme superior à sua vontade. Salta repetidamente e pensa com força que consegue... Salta repetidamente e pensa com força... Salta repetidamente e pensa... Salta... Salta... Salta...